terça-feira, 28 de setembro de 2010



Por David Camilo

O presente estudo tem como objetivo analisar as formas do conceito razão no âmbito do pensamento de Arthur Schopenhauer (1788-1860).Tendo em vista que o conceito de razão no pensamento de Schopenhauer consiste, em primeira estância, em dois aspectos, quais sejam, o teórico (epistemológico) e o prático. Contudo, a partir de uma leitura aprofundada do tema, salta-se aos olhos um possível terceiro aspecto desse conceito de razão. A originalidade desta pesquisa consiste justamente na análise desta terceira forma de razão que tem como cerne a dimensão ascética inserida na ética schopenhaueriana.

A primeira forma de razão – a razão teórica – está em vista de uma finalidade: o conhecimento. Já a segunda forma – a razão prática – visa proporcionar ao homem uma sabedoria de vida. Num terceiro momento, alguns conceitos, como o de Vontade, negação da vontade, ascetismo e o de mística, remetem-nos a um terceiro nível dessa razão. Tal razão é o que poderíamos designar como razão mística. A peculiaridade desta ultima é, acima de tudo, a ausência de finalidade, o que faz com que ela se diferencie das demais.

Desse modo, quando se toma o conceito razão na filosofia de Schopenhauer, evidencia-se a importância de aprofundar na interpretação de seu conjunto filosófico a fim de perceber sua completude.

O objetivo principal desta pesquisa é analisar a abordagem e o papel da razão no pensamento de Schopenhauer, sobretudo, seu caráter mutável, ao passo que ela muda de aspecto e de natureza de acordo com o desenvolvimento das obras do filósofo. A partir disso, quais são as figuras e o percurso de tal razão?

Sendo assim, propõe-se como objetivos específicos: a) analisar como o primeiro sentido do termo razão em Schopenhauer passa a ser determinante na elaboração da parte epistemológica de sua filosofia; b)Verificar o procedimento e a alteração do emprego do termo razão a partir do primeiro livro de O Mundo como Vontade e como Representação e dos Aforismos para a sabedoria de vida, a fim de melhor vislumbrar como se dá essa mudança; c) e analisar o terceiro sentido do termo razão schopenhaueriana que se volta para a negação da Vontade e que culmina no ascetismo.

Os materiais utilizados foram as obras de Arthur Schopenhauer. Sobretudo, considerou-se importante o aprofundamento na leitura e nos fichamentos da obra O Mundo como Vontade e como Representação (2005 – tradução da Editora Unesp – São Paulo). Dado que o livropossui quatro partes reconheceu-se a importância e a necessidade de saber do que trata cada uma das partes em suas especificidades, sobretudo, o que concerne ao conceito razão.

Quanto as leituras, além da principal obra do filósofo, O Mundo como Vontade e como Representação, valeu-se da leitura e fichamento da obra de 1851, qual seja, os Aforismos para a sabedoria de vida.

O método utilizado para esta pesquisa constitui em fazer a distinção entre as duas primeiras formas de razão para, em seguida, melhor compreender o que propomos no terceiro objetivo deste estudo, qual seja, a análise da possibilidade de uma outra forma de razão nopensamento de Schopenhauer que não fora apontada diretamente pelo filósofo, contrariamenteao caso das duas anteriores, e pode ser tomada como uma razão ético-mística, esta se diferencia das outras por não visar um fim, podendo assim, ser designada também, e por isso mesmo, de desinteressada.

A maior dificuldade, em um primeiro momento, foi a de fazer uma distinção mais precisa das particularidades entre os conceitos que permeiam a razão schopenhaueriana.

Da mesma forma que fora afirmado no Relatório Parcial, as observações feitas pelo professor a partir dos encontros, foram fundamentais para esclarecimentos e a melhor compreensão do tema, além das correções e indicações de leitura. Após a elaboração dos textos eram feitas as leituras junto ao professor orientador que orientava onde se devia melhorar e, a partir daí, seguiam-se as correções em vista de uma leitura mais aprofundada.

Os resultados alcançados correspondem às leituras e fichamentos levados a termo durante o desenvolvimento da pesquisa. Como fora mencionado no Relatório Parcial, parte-se da exposição e análise das duas figuras de razão apontadas no pensamento schopenhaueriano -razão epistemológica e razão prática- para, em seguida, apontar uma terceira figura de razão, qual seja, o que poderíamos designar como razão mística,isto é, a razão propriamente ética na filosofia de Schopenhauer. A partir dessas análises, torna-se possível a verificação e o entendimento de como, na ética desinteressada de Schopenhauer, a razão não mais opera como um mero mecanismo em vista de uma finalidade, daí o seu caráter propriamente desinteressado.

4.1. Do entendimento aos conceitos

Arthur Schopenhauer referindo-se ao mundo diz: "Pois assim como este é, de um lado, inteiramente REPRESENTAÇÃO, é, de outro, inteiramente VONTADE" (SCHOPENHAUER, 2005, p. 45, grifos do tradutor).Com o presente fragmento, extraído do primeiro capítulo da obra O mundo como Vontade e como Representação, o autor menciona as duas principais divisões de toda sua filosofia, a saber, a do mundo como mera Representação e a do mundo como mera Vontade. É em torno do conceitoRepresentação, que Schopenhauer desenvolverá toda sua construção filosófica.

4.1.1. o universo do entedimento

Detendo-se no aspecto designado como entendimento, considerado por Schopenhauer como um fim para o conhecimento, toma-se então o primeiro livro deO Mundo como Vontade e como Representação, no qual o filósofo faz uma exposição detalhada acerca dos itinerários - as vias - que devem ser traçados para se chegar a um conhecimento. É sua epistemologia. A obra de 1818 é aberta por Schopenhauer com a afirmação: "O mundo é minha representação. Esta é uma verdade que vale em relação a cada ser que vive e conhece, embora apenas ohomem possa trazê-la à consciência refletida e abstrata" (SCHOPENHAUER,2005,p.43).

O elemento norteador para Arthur Schopenhauer, ou seja, seu ponto de partida, é o de que não há verdade alguma mais certa e mais independente a não ser a de que todo o mundo existe para o conhecimento, sendo este o motivo que determina sua existência; e é tão somente objeto em ralação ao sujeito, ou seja, representação. Quando, pois, o homem conscientiza-se dessa realidade, "torna-se claro e certo que não conhece sol e terra alguma, mas sempre um olho que vê um sol, uma mão que toca a terra" (SCHOPENHAUER,2005,p.43). Desse modo, tudo o que tem sua existência no mundo está condicionado pelo sujeito e, desta forma, existe apenas para este. É este o "lado do mundo" do qual parte Schopenhauer. Veja-se nas palavras do próprio autor:

Verdade alguma é, portanto, mais certa, mais independente de todas as outras e menos necessitada de uma prova do que esta: o que existe para o conhecimento, portanto o mundo inteiro, é tão somente objeto em relação ao sujeito, intuição de quem intui, numa palavra representação. (SCHOPENHAUER, 2005, p.43).

Situando-se nessa condição, pode-se admitir duas metades do mundo como representação: a do objeto e a do sujeito. Essas partes são consideradas inseparáveis, uma vez que cada uma delas existe com a outra e também pode desaparecer com ela. A primeira dessas metades - a do objeto - tem como forma o espaço, o tempo, e a causalidade. A segunda, no entanto - a do sujeito – não se encontra em nenhuma dessas formas; ela se faz inteiramente presente em cada serque representa.

Mediante estas primeiras considerações verifica-se que a razão analisada como sendo teórica tem um fim evidente e específico: o conhecimento. Schopenhauer, para expor seu processo de elaboração desse conhecimento – representação – parte do pressuposto de que há um princípio de razão suficiente[1]. Contudo, antes de se ater a tal princípio, é necessário compreender que, para a aplicabilidade do mesmo, deve haver um mundo que é o objeto do conhecimento e um sujeito constituído de corpo (sentidos) e de intelecto, no qual está o que se diz Entendimento[2].

Contudo, para poder considerar com profundidade a dimensão conceitual na qual Schopenhauer expõe sua teoria do mundo como Representação e, por conseguinte, desenvolver uma análise do comportamento da razão no interior desse mundo, é necessário que se tenha em mente algumas noções introdutórias quanto ao termo representação.

Em Schopenhauer, representação refere-se a uma "complexa atividade fisiológica no cérebro de um animal ao fim da qual se tem a consciência de uma imagem" (BARBOZA, 1997, p.30). Mas, ao que concerne a possibilidade da efetivação de um processo mental que leve a formação de imagens e, por conseguinte de conceitos, é o que agora será abordado.

De modo geral, o mundo é representado a partir de tudo aquilo que aparece como figura (forma) para o entendimento. Através dos órgãos dos sentidos, os primeiros dados fornecidos pela experiência conduzem à representação. No processo de "elaboração mental" para a definição de uma imagem o sujeito é ativo, e possui três formas puras e inatas de conhecimento para poder conceber o mundo que o envolve, quais sejam: o tempo, cuja essência é a sucessão; o espaço, cuja essência é somente a posição; e, por fim, a causalidade, que está sempre buscando as origens dos fenômenos. Essas formas constituem o denominado princípio de razão suficiente. Contudo, numa perspectiva kantiana, o mundo no qual se dá o conhecimento é o dos fenômenos, isto é, o que é visível.

No primeiro livro de O Mundo como Vontade e como Representação encontra-se a aplicabilidade do Entendimento. Por isso, sua natureza está ligada a epistemologia. Mediante as formas de entendimento se dão as intuições imediatas das coisas. O mundo, especificamente com esse viés, é uma conclusão do Entendimento. É preciso um trabalho intelectual de construção das coisas; é por isso que se pode afirmar que a realidade é um produto originado a partir de um efetivar do sujeito. Caso contrário, a teoria da representação não se fundamentaria.

Levando em consideração a relação sujeito-objeto no âmbito do conhecimento, a filosofia que Schopenhauer concebeu ainda em sua juventude é marcada por não pactuar com duas correntes filosóficas: o idealismo e o realismo. Quando Schopenhauer não toma o sujeito como ponto de partida não quer dizer que ele se coloca no plano de uma filosofia realista. Isso porque nem o objeto é tomado como ponto de partida. Por outro lado, não partindo do objeto, Schopenhauer não cai na dinâmica do idealismo que considera o sujeito como referência.

Deste modo, Schopenhauer não parte nem do sujeito nem do objeto, mas, ele toma a representação como seu ponto inicial, o ponto de partida. Isso é fundamental para a presente análise, pois, tudo no mundo é e somente é por um fundamento pelo qual é. E, todavia, é este o papel do entendimento abordado nesse primeiro sentido, ou seja, um papel cognoscitivo que fundamenta o mundo.

É imprescindível ter em mente que toda consideração de Schopenhauer em relação ao mundo como representação remete à realidade externa de tal mundo. Trata-se da realidade empírica. Mas realidade empírica, no sentido schopenhaueriano, é o fazer-efeito do sujeito. É a efetividade.

Com posicionamento contrário ao dogmatismo-realista e ao ceticismo, e referindo-se a eles, Schopenhauer afirma:

(...) tem-se de fazer uma correção de ambos, primeiro com o ensinamento de que objeto e representação são uma única e mesma coisa; em seguida, que o ser do s objetos intuíveis é precisamente o seu FAZER-EFEITO, exatamente neste consistindo a efetividade das coisas, e que exigir a existência do objeto exteriormente à representação do sujeito, bem como um ser da coisa efetiva diferente do seu fazer-efeito, não possui sentido algum e constitui uma contradição (SCHOPENHAUER, 2005, p.57, grifo do tradutor).

Nisso se fundamenta a tese de Schopenhauer que toma o conhecimento sobre a maneira de fazer efeito de um objeto intuído como condição que o esgota como objeto mesmo, ou seja, como representação fenomênica. Caso esteja foradessa representação, o objeto não oferece nada para o conhecimento. Por isso se pode dizer que o mundo, quando dá sinal de si como causalidade pura, é perfeitamente real, pois é intuído no espaço e no tempo. Desse modo, o mundo que faz efeito é condicionado pelo entendimento e nada é sem ele. A causalidade, como categoria presente no entendimento, é também somente para o entendimento. Sendo assim,o mundo inteiro dos objetos é e permanece representação, e precisamente por isso é, sem exceção em toda a eternidade, condicionado pelo sujeito, ou seja, possui idealidade transcendental. Desta perspectiva não é uma mentira nem uma alusão. Ele se oferece como é, como representação, e em verdade como uma série de representações cujo vínculo comum é o princípio de razão (SCHOPENHAUER, 2005, p. 57).

Dessa forma e com as palavras do próprio filósofo, o que mais acentuadamente caracteriza uma representação. Assim, passa-se à consideração do que é uma das "raízes" que fundamentam o mundo e fora inserida por Schopenhauer em sua tese doutoral intitulada Da quádrupla raiz do princípio de razão suficiente de 1813, qual seja, a da noção do princípio de razão do devir.

4.1.2. O corpo como caminho para o conhecimento

Atuando no campo da cognoscibilidade humana, a noção de corpo em Schopenhauer apresenta-se como um recorte específico e inovador. Justamente devido ao corpo ser possuidor de órgãos de sentidos, ou seja, atuar no mundo fenomênico, é possível o trabalho do entendimento em vista da elaboração de intuições, pois somente nele (corpo) e com ele pode-se dar a intuição de cada indivíduo. Como afirma Schopenhauer, o corpo é um "objeto imediato, vale dizer, é um conjunto de sensações" (BARBOZA, 1997, p. 33). É importante ressaltar que, o corpo também é meramente representação, uma vez que, como todo o mundo, ele é visto só do ponto de vista da cognoscibilidade humana.

Em linhas gerais, o que se apresentou nesta primeira parte como a concepção do mundo intuitivo schopenhaueriano não é de nenhuma maneira transferido para um segundo plano ao inserir a análise referente aos conceitos abstratos, ficando assim evidente, a dimensão que abrange cada uma dessas vertentes. Isso faz com que fique claro que o conceito razão em Schopenhauer, sob um primeiro aspecto, é essencialmente instrumento para a possibilidade do conhecimento.

4.2. SOBRE A RAZÃO PRÁTICA E A SABEDORIA DE VIDA

Toda leitura precisa da principal obra de Schopenhauer, O Mundo como Vontade e como Representação, faz tornar-se perceptível que, a análise do conceito razão, que se apresenta como instável e, por isso, mutável devido à sua passagem do âmbito teórico para o nível prático, tem a partir do capítulo 16 do primeiro livro de O Mundo... seu fundamento essencial. É notório que o Schopenhauer de 1851 em Parerga und Paralipomena já não é o mesmo que o de 1818 em O Mundo como Vontade e como Representação. A filosofia de 1851 apresenta um Schopenhauer adulto e portador da consciência de que seus escritos já arrebanhavam discípulos, como Frauenstadt e Gwinner. Por isso, a filosofia outrora apresentada em 1818 não é em todos os sentidos concernente com esta última mencionada.

Quando se toma o livro O Mundo como Vontade e como Representação é possível notar que o conceito razão, e com ele todo o enfoque da obra, adquire matizes diversos e em cada momento apresenta-se como uma estrutura peculiar. Provavelmente seja esse o alerta principal que abre caminho para afirmar que é possível o resgate de um otimismo prático eclodindo de um pessimismo teórico.

O que, todavia, acontece com a passagem da primeira "fase" para esta segunda é tão somente a diferenciação com relação à finalidade e o papel próprios da razão, mas não que ela tenha deixado de tê-los. E essa outra ocupação da razão, ao invés de ser da elaboração e da construção do conhecimento humano, é a da conduta de vida das pessoas.

É somente na abertura do capítulo 16 de O Mundo... que a razão tida como prática é enunciada, sendo dita desse modo: "Após as considerações sobre a razão enquanto faculdade especial e exclusiva do homem, e sobre a que fenômenos e realizações próprios da natureza humana, falta ainda falar da // razão na medida em que conduz a ação das pessoas[...]" (SCHOPENHAUER, 2005, p. 138).

A transferência do papel primordial da razão humana para o plano da prática está diretamente ligada com a consideração já feita de que mesmo sendo capacitado para a arte da formação de conceitos abstratos, o homem sempre se baseia em atributos conhecidos imediata e intuitivamente. A partir dessa consideração faz-se uma inferência do que fica mais perceptível: o homem natural sempre atribui mais valor àquilo que é conhecido in concreto, imediatamente. Os conceitos tidos como frutos da abstração são meramente pensados. Procedendo assim, Schopenhauer vai contra a afirmação de que o homem prefere o conhecimento empírico ao lógico (SCHOPENHAUER, 2005, p. 140).

É, pois, justamente o caráter prático da vida humana que o filósofo almeja defender como o modo mais correto. Schopenhauer afirma que "O contrário pensam as pessoas que vivem mais nas palavras que nos atos. Que enxergam mais no papel e nos livros que no mundo efetivo, e que, ao degenerarem, tornam-se pedantes e apegados à letra" (SCHOPENHAUER, 2005, p. 140).

Há, no entanto, uma necessidade de se abordar, diante do fato do vasto e incerto horizonte de possibilidades da ação humana, uma maneira adequada de se viver. Eis aí, a esfera que motiva o tratamento desse estudo como um segundo sentido de averiguação do comportamento da razão.

Na filosofia schopenhaueriana falar de uma "sabedoria de vida" é, primeiramente, efetuar um recorte na estrutura geral de seus escritos. Na introdução de seus Aforismos para a Sabedoria de Vida (1851), Schopenhauer deixa claro que é preferível procurar o modo mais agradável possível de se viver invés da não-existência. Ao estudo concernente a esse "modo de viver" e pode-se também denominá-lo eudemonologia.

O relato acima mencionado pode ser tomado como um destacamento do pensamento de Schopenhauer e consiste na consideração da concepção de vida – sobretudo a partir dos livros I e II de O Mundo como Vontade e como Representação – como objetivação da Vontade que traz consigo a autodiscórdia que, por sua vez, se espalha na guerra de todos os indivíduos pela matéria constante do mundo. A fim de ver a afirmação de sua espécie, cada indivíduo porta consigo uma vontade de aniquilação do outro. Este é o elemento que gera sofrimento e dor em todo lugar onde houver vida. Tal é o motivo principal que permite a verificação de um pessimismo exacerbado na filosofia de Schopenhauer. Além do caráter pessimista advindo da autodiscórdia vital, o que se tem como conseqüência é o conceito de Negação da Vontade que, por sua vez, tem como ponto culminante o ascetismo. Ora , se a vida é sofrimento e tédio, o que há de mais valoroso é a negação dela mesma. Ademais, é nisso que consiste, em suma, o último livro de O Mundo...

Contudo, o conteúdo das páginas que se seguem consiste na análise de uma possível saída dessa realidade pessimista, ao que Schopenhauer também chamou de "uma acomodação", desviando-se desta forma, do ponto de vista ético-metafísico que se dá no campo prático e que se chama "sabedoria de vida" a qual, acredita-se, tem por base e fundamento a razão prática, já antes indicada na obra de 1818.

A sabedoria prática juntamente com a razão encontra seu desfecho numa meta de precaução: para quem toma a sabedoria de vida como norte cabe não ceder às adversidades, mas evitar as dores. Devido a isso, é possível afirmar que é mais sábio compactuar com o justo meio e não estritamente com os prazeres do mundo. É, portanto, mais digno avaliar uma pessoa pela quantidade de males que evitou do que pelos prazeres que fruiu. Ora, a sabedoria de vida é o meio e também a condição para se evitar a atração das desgraças e, com isso, alcançar uma vida sábia e com boa qualidade. O ponto máximo do uso da razão prática consiste, portanto, num equilíbrio entre luz e sombra, ou seja, entre felicidade e sofrimento, sendo que ambas levam a musa desconhecida, a morte. Para Arthur Schopenhauer, esse é um método filosófico que não pactua com o mero eufemismo.

Para construir e solidificar seu tratado da "sabedoria de vida" Schopenhauer toma o modelo aristotélico que divide os bens da vida humana em três classes que constam na obra do autor, a saber, Aforismos para a sabedoria de Vida, quais sejam: os exteriores, os da alma e os do corpo. Ele demonstra, a partir destes, que os homens podem ser diferenciados de acordo com três determinações fundamentais, sejam elas, o que alguém é, o que alguém tem, e o que alguém representa.

Nas palavras do próprio Schopenhauer:

1) O que alguém é: portanto, a personalidade no sentido mais amplo. Nessa categoria incluem-se a saúde, a força, a beleza, o temperamento, o caráter moral, a inteligência e o seu cultivo. 2) o que alguém tem: portanto, propriedade e posse em qualquer sentido.3) o que alguém representa: por essa expressão, como se sabe, compreende-se o que alguém é na representação dos outros, portanto, propriamente como vem a ser representado por eles. Consiste, por conseguinte, nas opiniões deles a seu respeito, e divide-se em honra, posição glória (SCHOPENHAUER, 2005, p. 3).

Como visto na citação acima, claro e evidente fica que é esta a divisão que constitui parte dos Aforismos para a Sabedoria de Vida. É com o apontamento de cada uma destas três divisões – embora não se atendo muito a detalhes – que, acredita-se, fica evidente a passagem de uma razão teórica do campo do conhecimento para outra prática do campo da sabedoria de vida.


4.3. A ÉTICA DE SCHOPENHAUER: RAZÃO ÉTICO-MÍSTICA

Para que se chegue a uma demonstração de que em Schopenhauer o papel da razão não fica restrito à simples efetivação de objetivos, é, todavia, necessário ter em mente que o conceito base do filósofo é a Vontade. A partir do momento em que já se possui noção do que trata este conceito norteador, outro aspecto de suma importância é ter em mente que na filosofia schopenhaueriana há também o que se denomina como Negação da Vontade, noção que se pode tomar como pressuposto básico a partir do qual a ética de Schopenhauer pode ser adjetivada de desinteressada.

Quando, porém, se considera a razão de acordo com o terceiro aspecto apontado nesta pesquisa, ou seja, a razão ética da filosofia schopenhaueriana, é preciso que se considere que ela toma outro sentido e uma outra finalidade que não o do conhecimento. Nesse sentido, a razão prepondera sobre a Vontade que se faz presente mais intensamente no asceta.A Vontade, em Schopenhauer, é a essência íntima do mundo, irracional e cega, a coisa-em-si kantiana que se manifesta em seu ponto culminante no ser humano através de seu próprio corpo. Quando se dá a negação de tal Vontade ocorre que, como afirma Schopenhauer, "a coisa individual se torna a idéia de sua espécie, e o indivíduo que intui, o sujeito do conhecimento".

Esta negação, por conseguinte, acontece estritamente de três modos: através da contemplação do belo (no âmbito da estética), por meio da boa ação por compaixão (ética) e, por fim, como máximo grau, através da ascese. Verifica-se, então, o outro papel da razão em Schopenhauer: o místico.

Para tratar de algo tão essencial e peculiar nesta pesquisa como o é o conceito de uma razão ético-mística na filosofia de Schopenhauer , ésobremaneira imprescindível que antes abordemos, de forma breve, sobreum conceitointimamente ligado a este,a saber : a Vontade.


4.4. A VONTADE

Ao que tange a conceituação da Vontade feita por Schopenhauer, seria aqui, reduzir a definição do filósofo se suas palavras não fossem citadas. Em uma das passagens de tal conceituação encontra-se o seguinte:

Reconhecerá a mesma vontade como essência mais íntima não apenas dos fenômenos inteiramente semelhantes ao seu, ou seja, homens e animais, porém, a reflexão continuada o levará a reconhecer que também a força que vegeta e palpita na planta, sim, a força que forma o cristal, que gira a agulha magnética para o pólo norte, que irrompe do choque de dois metais heterogêneos, que aparece nas afinidades eletivas dos materiais como atração e repulsão, sim, a própria gravidade que atua poderosamente em toda matéria, atraindo a pedra para a terra e a terra para o sol, - tudo isso é diferente apenas no fenômeno, mas conforme sua essência em si[...] chama-se VONTADE (SCHOPENHAUER, 2005, p. 168).

Perceba-se como no presente fragmento extraído do primeiro livro de O Mundo... o filósofo expõe de forma assertiva no que consiste o conceito Vontade. E como o mundo inteiro é revelador desta Vontade, o homem, por sua vez, é oseu principal meio para isso, uma vez que este é a forma mais visível e mais perfeita de sua manifestação. Pelo fato do homem ser dotado de inteligência, nele a Vontade chega à consciência de si mesma.

Na manifestação da Vontade ocorre a afirmação da vida. Por esse fator, no pensamento schopenhaueriano, é um pleonasmo falar numa Vontade de vida, dado que uma subtende a outra. No entanto, o filósofo postula uma Vontade em geral que por sua vez se desdobra em vontades particulares. Com isso, salta-se aos olhos uma Vontade meta-física que tem as Idéias por seus atos originários. Aqui não se quer afirmar uma realidade "a parte" ao mundo, ou seja, fora dele, mas apenas além do visível.

Verifica-se que, o que Schopenhauer denomina como Vontade pode ser concebido como análogo ao conceito kantiano de coisa-em-si, uma vez que ela não pode ser vislumbrada no mundo fenomênico, sendo ela mesma o próprio noumenon. O conceito Vontade está associado ao fundo íntimo de todo fenômeno, à substância íntima, núcleo de toda coisa particular e do todo. Outros adjetivos que não podem ser excluídos numa tentativa de definição da Vontade em Schopenhauer são os de irracional e de cega. Ademais, com todo o risco do reducionismo, pode-se afirmar que quando se pensa em Vontade na filosofia de Schopenhauer, necessariamente, pensa-se em uma Vontade que quer vida a todo instante, a todo custo e, por isso fica constatado e "justificado" o pleonasmo em se falar de uma Vontade de vida.

Contudo, essa Vontade cega, infundada, que impulsiona o homem a um querer viver a todo custo, uma Vontade de vida que conduz ao sofrimento através da dor e do tédio, segundo Schopenhauer, não pode visar outro fim senão o de ser negada. A Negação da Vontade, por conseguinte, acontece estritamente de três modos: através da contemplação do belo (no âmbito da estética), por meio da boa ação por compaixão (ética) e, por fim, como máximo grau, através da ascese. Verifica-se, então, o outro papel da razão em Schopenhauer: o místico. Com base nisso, eis o motivo de uma possível terceira forma de razão no pensamento de Arthur Schopenhauer, qual seja, a ético-mística, mote central do presente estudo.

É, pois, importante que seja relatado sobre as duas principais formas de aniquilação ou negação da Vontade, quais sejam, a ética e a estética e, por conseguinte, sobre a negação total da Vontade sob o caráter ético-místico.


4.4.1. Negação da Vontade na estética

Schopenhauer, apesar do carregado pessimismo presente em sua filosofia, refletiu alguns caminhos que direcionam para a "anulação" da dor. Um destescaminhos foram encontrados na contemplação estética, visto que esta proporciona ao sujeito um "perder-se" no objeto, fazendo assim ocorrer a anulação das dores do mundo. Não de maneira definitiva, mas sim momentânea.

Ao conceber o belo desinteressado como um movimento de afastamento da Vontade, o filósofo aponta um caminho que neutraliza o impulso do querer-viver, pelo menos por instantes. Tal desinteresse, que acompanha a arte ou o prazer negativo, é o que faz interromper o ciclo das carências que expressa o sofrimento do mundo. Tendo em vista que a Vontade é a substância íntima, o núcleo de toda coisa particular e do todo, ela se manifesta na força da natureza e no homem. Nessa manifestação ocorre a afirmação da vida; e, para tanto, permanece inalterável. Após ter-se manifestado e afirmado no mundo, ela pode ser negada. Justamente neste ponto, ao contemplar o belo a partir de uma experiência estética, a existência do indivíduo pode ser neutralizada de seus interesses e desejos. Como afirma Schopenhauer:

Em tal contemplação, tanto o artista na qualidade de gênio quanto o sujeito que contempla são levados a um ascetismo momentâneo na sua atitude contemplativa diante do belo.

Desta forma, em meio à contemplação, não se separa o sujeito que INTUI da INTUIÇÃO, mas ambos se tornam UNOS na medida em que toda a consciência é integralmente preenchida e assaltada por uma única imagem intuitiva e, sendo assim, aquele que concebe na intuição não é mais indivíduo, visto que o indivíduo se perdeu nessa intuição, e sim o atemporal / PURO SUJEITO DO CONHECIMENTO destituído de Vontade e sofrimento (SCHOPENHAUER, 2005, p. 246).

Na contemplação estética, a vontade contempla-se de maneira desinteressada, não sofre mais consigo, é puro olhar. Essa liberação do conhecimento da escravidão da vontade, esse esquecimento do eu individual e de seu interesse material, essa elevação da mente à contemplação da verdade sem influência da vontade são funções do gênio artístico e do asceta. Ou seja, a arte atenua os sofrimentos da vida quando nos apresenta o eterno e o universal por detrás do transitório e do particular. O espírito das aparências fenomenais, através da contemplação estética, se eleva à intuição dos modelos ideais, isto é, à primeira manifestação da essência do em-si.

A arte nos faz ir ao "lugar de origem" das coisas onde elas realmente "são". Remetendo-nos a este lugar pela contemplação desinteressada anulamos o querer-viver. O filósofo observa que, através da contemplação do belo numa experiência estética, a existência do indivíduo pode ser neutralizada de seus interesses e desejos.

Na contemplação do belo nos desvencilhamos de nós mesmos a ponto de atingir um "perder-se" totalmente, mesmo que momentâneo. Enfim, o homem se liberta da vontade e com ela da dor através da atividade da arte na qual as coisas não são mais vistas na sua conexão causal, mas na universalidade da idéia.

4.4.2. Negação da Vontade na ética

A ética propriamente schopenhaueriana está embasada na compaixão. Compaixão entenda-se as ações virtuosas e desinteressadas presente em pessoas que atingiram tal grau de despojamento que passam a ter como suas as dores dos que a circundam. Com isso, a compaixão é também, pode-se dizer, sinônimo de de ações não-egoísticas.

Por compaixão, pode ser também entendido como o ato do despojamento. O fazer algo em busca de benefício está caracterizado como seu oposto, isto é, a não-compaixão.

Sendo assim, podemos destacar no ascetismo, uma forma para o efetivar da compaixão.Na Negação da Vontade, este é considerado o grau máximo, o ponto culminante para se atingir a mesma, sendo a outra forma encontrada na figura do gênio. Porém, o que diferencia estes dois estágios – a saber que a genialidade está associada à arte e o ascetismo a beatitude – é que na figura do gênio não há consciência, ou seja (ele não sabe) que está negando a vontade e todo seu impulso "instintivo-destrutivo". O asceta, por sua vez, sabe.

Mesmo estando agindo dentro de uma ética, o gênio, cujo é dotado de um auto grau de inteligência, age sem a necessidade de uma finalidade, uma meta a chegar. Já no asceta, percebe-se o grau em que, no início, do mesmo modo que o gênio, não se tem consciência, contudo, mais adiante, com a "tomada da consciência" via conhecimento, há um progresso notório e esforçado em busca de uma maior negação, culminando destarte, numa libertação final.


4.4.3. Negação da Vontade: razão mística

Destarte, para Schopenhauer, a negação total da Vontade está presente em maior grau no ascetismo. Pois, é no asceta que com maior vigor, nota-se uma razão mística por excelência, uma vez que, com a efetivação do ideal ascético atingi-se, necessariamente, à noção de nada.

O asceta apresenta seu caráter no despojamento voluntário e intencional,desprendendo-se das coisas passageiras e tem a negação com um fim em si mesma. Para esta última, tudo o que ela quer énão querer. Este presente autoconhecimento que ora está presente no asceta passa a gerar a repugna em lugar do desejo (da Vontade). Não se pode, é claro, dizer que há uma supressão de todo desejo, uma vez que o corpo ainda é fenômeno da Vontade, contudo, passa a ocorrer um refreio intencional à volição.

A partir disso, percebe-se como Schopenhauer parece apontar o perfil do asceta ao expor as características do mesmo. Para a presente pesquisa, isso enriquece a argumentativa do texto no sentido do apontamento de uma razão mística no pensamento do autor.

Veja-se com as palavras do próprio Schopenhauer, alguns adjetivos para o caráter passivo do santo:

Como ele mesmo nega a Vontade, que aparece em sua pessoa, não reagirá quando um outro fizer o mesmo.[...] Nesse sentido, todo sofrimento exterior trazido por acaso ou maldade, cada injúria, cada ignomínia, cada dano são-lhe bem-vindos. Recebe-os alegremente como ocasião para dar a si mesmo a certeza de que não mais afirma a Vontade. [...] Suporta os danos e sofrimentos com paciência inesgotável e ânimo brando. Paga o mal com o bem, sem ostenção, [...] mortifica sua visibilidade, a sua objetidade, o corpo: alimenta-o de maneira módica para evitar que seu florescimento exuberante e prosperidade novamente animem e estimulem fortemente a Vontade. [...] (SCHOPENHAUER, 2005)

Com isso, Schopenhauer apresenta ao traçar o perfil do asceta, o estilo de vida que é almejado por muitos cristãos, hindus e budistas. Para Schopenhauer, é irrelevante o tipo de dogma professo por tais ascetas, de modo que o autor é tido como um "desertor do Ocidente". Em suma, pode-se dizer que é propriamente em função deste "conhecimento íntimo e imediato" que é nesta pesquisa postulada a tese da possibilidade de uma terceira forma de razão na filosofia de Schopenhauer. Eis até aqui, os elementos básicos para o entendimento de uma possível razão ético-mística no pensamento do autor de O Mundo como Vontade e como representação.


5.DISCUSSÃO

Todo o conteúdo presente neste estudo faz com que se perceba o domínio que se possuí sobre o tema trabalhado. Sobretudo, percebemos esse mencionado domínio na apreensão de conceitos schopenhauerianos como razão, Princípio de razão suficiente, Vontade, Negação da Vontade etc. Em um segundo momento, a leitura do livro quarto de O Mundo..., intitulado Do mundo como vontade (segunda consideração) constituiu um horizonte mais amplo para explorar e ir em busca da essência dos conceitos abarcados no livro.

O desenvolvimento de raciocínio levado a termo durante a pesquisa consistiu primeiro na compreensão dos conceitos de razão já apontados por Schopenhauer, quais sejam, a razão epistemológica e a razão prática, num segundo momento analisar o caráter mutável da razão no pensamento do autor e, por fim, o apontamento de um terceiro nível da razão não conceitualmente apontado por Schopenhauer, o mote da presente pesquisa, a saber: a razão mística.


6.CONCLUSÃO

O principal motivo da presente pesquisa pautou-se em analisar, na filosofia de Arthur Schopenhauer, o comportamento da razão e algumas características de seu caráter mutável. Para que isso fosse possível foi imprescindível a consideração de conceitos como Vontade e Negação. Doravante, somente a partir da análise de tais conceitos que foi possível interpretar um terceiro momento do conceito razão, que, em linhas gerais, não foi indicada conceitualmente pelo filósofo alemão, sendo descrita então sob as noções de Negação da Vontade, compaixão e ascetismo. É sob este viés, que se pode detectar a razão mística como um terceiro nível interiorizado nos argumentos da filosofia schopenhaueriana.

Em Schopenhauer, o primeiro sentido do termo razão está centrado na preocupação de solidificar sua tese de que o mundo no qual vivemos é tão somente de um lado Vontade e de outro Representação. Para está consideração foi necessário analisar, na filosofia do autor, o mundo dos fenômenos no qual semanifesta a Vontade. Destarte, a razão epistemológica, faz-se presente na fundamentação da concepção de mundo schopenhauerianamente falando. Pelo fato de portar consigo conceitos como o de entendimento, princípio de razão suficiente e intuição, este aspecto da razão envolve uma finalidade, e por este fator, é interessada, sendo meio para haver um conhecimento de mundo.

A razão nos escritos de Schopenhauer toma outra direção ao que concerne a uma preocupação com a conduta de vida do homem. O que se denomina razão prática é construída do décimo capítulo em diante da obra O Mundo como Vontade e Como Representação e assim como a anterior é também interessada já que está em vista da possibilidade de uma vida menos infeliz. Sob esse prisma, pode ser considerada prática e eudemonológica.

No terceiro e último aspecto da razão apontado na presente pesquisa, observa-se que ela toma outro sentido na filosofia de Schopenhauer e apresenta-se, diferente das outras, com um caráter desinteressado, isto é, totalmente desprovido de interesses. Esta última forma encontra seu ponto culminante no ascetismo.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo como Vontade e como Representação. Trad. Jair Barboza. São Paulo: UNESP, 2005.
SCHOPENHAUER, Arthur.Aforismos sobre Filosofia de Vida. Trad. Gilza Martins Saldanha da Gama. Rio de Janeiro: EDIOURO, 1991.
BARBOZA, Jair. Infinitude subjetiva e estética: natureza e arte em Schelling e Schopenhauer. São Paulo: Ed. UNESP, 2005.
SCHOPENHAUER, Arthur; BARBOZA, Jair. Metafísica do belo. São Paulo: Ed. UNESP, 2003.
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[1]Este termo é um conceito de Schopenhauer ligado ao entendimento que se corresponde, numa perspectiva Kantiana, ao tempo, ao espaço e a causalidade, os quais são elementos constituintes do próprio princípio de razão suficiente e que existem na consciência, independente dos objetos que aparecem nessas formas, e que encerram todo o seu conteúdo.

[2]O termo é tomado propriamente como sendo um lugar onde o princípio de razão atua e numa perspectiva fisiológica, entendimento pode desgnar cérebro, crânio ou cabeça.



















domingo, 5 de setembro de 2010

O que é Arte ?


Por Christiane Forcinito

Nietzsche dizia : "Temos a arte para que a verdade não nos destrua" e eu, sinceramente concordo com ele, pois, diante de tanta realidade muitas vezes "nua e crua" é esta que alimenta nossa alma e que muitas vezes apazigua nosso espírito.

A afirmação que fiz acima pode ser uma colocação muito estrita e subjetiva da arte, pois não há uma definição sobre o que é a arte visto que possa ter várias definições dependendo do foco ao qual esta pode ser interpretada, ou seja, a arte pode ter várias definições desde a etmológica, a psicanalítica, a instrumentalista e a estética.


A definição etmológica pode ser encontrada em muitos manuais consiste em dizer que a arte é uma extensão da religião, pois ela teve um caráter mágico, religioso e mítico que surgiu com os homens primitivos.

Já a definição psicanalítica é um tanto polêmica pois ela afirma que a arte é uma "válvula de escape" tanto para o artista (que possui emoções) quanto para o espectador, ou seja ambos podem mostrar facetas de ambos tanto como uma fuga do real para o belo quanto mostrar um lado mais sombrio.


A definição instrumentalista já nos remonta também ao aspecto religioso e político, assim como o pedagógico e moral, ou seja a arte utilizada para um determinado fim. E a estética que define a arte como sendo a arte pela arte, em outras palavras é o simples prazer gratuito que esta nos proporciona sem importar a psicanálise, a finalidade, a história, a filosofia, a concepção que a trouxe, enfim, nada importa é simplesmente se "sinto prazer".


A "estética" é uma arte das sutilezas eu diria, pois para apreciar a arte pela arte é necessário ter um espírito extremamente preparado e "refinado" ( Harold Osborne tb disse isso) para isso.
 
Enfim, diante destas várias defnições do que vem a ser arte, ainda sim penso de ela é necessária para o bem da nossa alma, afinal a nossa prórpia existência deve ser vivida como se fizéssemos dela uma eterna obra de arte. 
 
Sei que poderia ter desenvolvido mais este texto, porém o horário e os afazeres não me permitiram a aqui é um blog não uma revista especializada... (risos).
 
Christiane Forcinito.

sábado, 10 de julho de 2010

O simbólico na Teodicéia: O Eros

Por Christiane Forcinito


O que é a "Teodicéia"?


Talvés esta seja a primeira pergunta quando se depara com um texto com esse título e isso é totalmente normal para quem nunca teve acesso a nenhum estudo filosófico ou se teve foi um estudo de nível básico e nada que tenha que se envergonhar por isso.


Teodicéia é o estudo da uma abordagem da questão de Deus a partir de um pensamento filosófico -religioso (na faculdade geralmente estudamos o pensamento ocidental) estabelecendo diálogo com o contexto sócio -cultural e político da época e atual. Se alguém discordar desta definição sinta-se a vontade para escrever, afinal ainda sou uma filósofa em construção.


A teodicéia possui bases antropológicas, estuda por exemplo a experiência humana do divino, a experiência religiosa no mundo grego onde podemos fazer várias releituras sobre a questão do mito, e se formos estudarmos este mesmo foco no mundo semítico poderemos fazer a mesma releitura nos elementos da crítica bíblica por exemplo.


A teodicéia estuda a questão do ser humano na busca do absoluto e o problema da "arché" em oposição ao mito e assim entrando em Platão com o mundo das idéias e a questão do "demiurgo", na metafísica de Aristóteles. Na questão do "Sumo bem" de Santo Agostinho e nas "Provas da existência de Deus" de Santo Tomás de Aquino.


Emfim é mais uma disciplina que se entrelaça com outras próprias da filosofia e que aqui vou me fixar neste texto nela e a questão do simbólico, mesmo porque amanhã farei uma prova sobre isso e aproveito não só para postar um novo texto no blog como estudá-lo e o clima propenso visto que muitos por aqui estão dando ênfase no Eros... e que tem muito haver com a questão do simbólico...


Na Natureza há um predomínio no simbólico isto é o Eros...


O Eros na mitologia Grega

O mundo era árido e sem vida e assim Eros “tomou suas flechas doadoras de vida, penetrando o frio seio da terra” e “imediatamente a superfície castanha ficou recoberta de luxuriante verdura”. Cria a vida.

Eros é a vivência das intenções pessoais e o significado do ato. É um estado do ser. Agarramos-nos a excitação e queremos que continue sempre, pois o Eros é a ânsia, a eterna procura de expansão.

Eros é a força que nos atrai, é a força que nos impele ao que pertencemos. União com nossas próprias possibilidades, união com pessoas significativas do nosso mundo, em relação a quem descobrimos nossa auto realização... “Areté” (existência boa e nobre que todos buscamos).

O Eros quer sempre estar desperto, pensando no amado, como os chineses dizem “experiência de múltiplo esplendor”, recordando, saboreando...

Eros é a busca da ampliação do estímulo, a fonte de ternura, a genuína união, na qual a finalidade do desejo não é a satisfação e sim seu prolongamento...O Eros é o desejo ardente, a ânsia , o desejo de amar. Resumindo: “Todo o começo é encantador”...


Eros e Sexo são diferentes para os gregos.
Sexo é redução de tensão, excitação fisiológica, a gratificação e a satisfação do desejo para depois de um ritmo e resposta vir a redução desta tensão e alívio.

O sexo vem do latim “sexus” que significa separação, como que distinguir funções fisiológicas, isto é o caráter macho e fêmea. É um termo zoológico, um padrão das funções neurofisiológicas.


O sexo é caracterizado pelo entumescimento dos órgãos e enchimento das gônadas (onde se necessita um alívio satisfatório). Sexo é necessidade, onde a finalidade do sexo é o orgasmo, mas não para o Eros.

Depois do sexo há o sono, o descanso e o alívio que o corpo responde.


Eros em Platão

“Lembrar do Eros deve-se voltar ao “Banquete”, onde Platão descreve o amor:” Não é mortal, nem imortal, mas fica entre os dois... É um grande espírito (demônio) e como todos os espíritos um intermediário entre o divino e o mortal... “É o medianeiro unindo o abismo que separa os homens e os deuses e, portanto nele tudo se reúne...”.

O amor significa dar forma interior da pessoa e buscar esta forma unindo-se á ela. O Eros é o impulso que o leva a unir-se com outra pessoa.

No caso de Platão é também a ânsia pelo conhecimento fazendo com que impila o homem ao encontro com a verdade.

Eros é a força geradora, isto é ela é eterna e imortal e esta criação é o ponto mais “Divino e imortal” que o homem pode chegar.

O Eros também pode ser o impulso para procriação mas no sentido de unir-se, assim como nos animais, mas os humanos estão em perene mutação, onde há uma dimensão de experiência psicológica e emocional quanto biológica.

No caso da psicologia o Eros se manifesta nesta procura do auto-conhecimento, expansão do “self”, no impulso do indivíduo se dedicar a busca da verdade. Eros tornando-se ponte do ser no vir - a – ser.

Santo Agostinho diz que o Eros é a força que nos impele para Deus. Nietzsche diz que está no amor fati. Camus o Eros nos impele para a auto - realização e nós, nossa natureza humana dificilmente encontrará melhor auxiliar que o “Eros” para nos impelis para o verdadeiro.



Uma Reflexão... A RUPTURA ENTRE AMOR E SEXO

Hoje vivemos numa sociedade onde há por um lado a banalização do sexo e do amor, onde o sexo é usado como instrumento para prova de sua própria identidade, isto é, usamos a sensualidade para ocultar a sensibilidade e assim castrando o sexo tornamo-os vazio e sem ligação com o amor.

A sexualidade sofreu transformações significativas inclusive no âmbito sociocultural, isto é, hoje é mais um objeto de mercado. A liberação sexual que a priori era uma tentativa de buscar uma expressão humana acabou tornando-se uma mudança de perspectiva na qual tornou o sexo mais uma ferramenta levando a separação de teorias como Eros e o sexo, ou seja, em toda essa abertura e questões subjetivas que foram se abrindo depois disso como por exemplo, gays, héteros, homens, mulheres que às vezes estão em um campo de batalha numa luta pelo poder a cisão ficou maior ainda na qual Eros e sexo não precisavam nem sequer existir, um não necessitava nem um pouco da existência do outro.

Hoje o sexo está mercantilizado também de tal forma que o “desempenho” se tornou palavra de ordem. Todos estão preocupados com sua forma, culto ao corpo e seu desempenho sexual. A pessoa se tornou um objeto de tal forma que perdeu totalmente sua subjetividade. E o que na época se procurava libertar (Anos 60) hoje se tornou alienação.

O capitalismo também lucra muito e com isso a sexualidade além de gerar prazer proporciona um incentivo para um comércio na qual fica evidente que a compulsão do comportamento atual está longe do amor der o “Eros” dos gregos.

Nesta grande inversão de valores há a instabilidade onde a cisão entre Eros e sexo se faz presente e abala as bases da sociedade, isto é a família, surge na sociedade a pressão também do capitalismo materialista com o nascimento de um herdeiro o que torna o casamento o sexo meio impositivo e obrigatório. Há também a ligação entre sensualidade e dinheiro na qual o desejo é inserido e o matrimônio começa a ser degradado, os problemas não são resolvidos entre o casal e acabam sendo despejados nos filhos e com isso divórcios e separações.

E com o culto ao orgasmo, expressão da mecanização do amor, hoje está tudo extremamente distorcido e os paradigmas rompidos. Hoje se procura alguém para não ficar sozinho, para aliviar suas tensões, enfim, se procura alguém por diversos motivos exceto pelos verdadeiros.

O amor, o que vem a ser o amor?

Hoje se perdeu a dimensão do que é o amor, do que é o corpo e a sexualidade... Não estou nem querendo parecer puritana, moralista, longe disso, bem longe disso... Quem me conhece bem sabe que não tenho nada de puritana e nem moralista.... Mas profundamente o que meus amigos e leitores acham?

Grande abraço!

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010



Tão poucos filósofos são possíveis de se deparar como sendo de tão difícil compreensão como Heidegger. Embora esse pensador alemão seja sistemático, os termos encontrados em sua complexa obra capital, Ser e Tempo (o próprio Heidegger definia como confusa [Safranski, 2001]), e todos seus escritos, exigem uma constante atenção no sentido de desvelar os termos que Heidegger utilizou – foi também um grande inventor da linguagem, com influências sobretudo de Hölderlin, o poeta que ao seu ver exercia a comunicação mais íntima com o ser -, do contrário caímos no sem-sentido. É ao lado de Sartre um dos maiores filósofos do existencialismo moderno, porém muito questionado por estar preocupado com uma ontologia do Ser, o que descaracterizaria a corrente filosófica dos existentes singulares, contudo, é sem dúvidas um grande nome que também permite a apreensão do homem singular. A questão fundamental é saber usar as determinadas contribuições de Heidegger, sem descaracterizá-las, e não simplesmente recusá-las somente porque podem apresentar pressupostos que soam contrários a um determinado modo de pensamento – fadado ao fracasso se a hermenêutica for um dos princípios desse “modo” de pensar.

Sua obra, embora tenha o realce pautado no sentido ontológico do Ser, atravessa, necessariamente, os caracteres ônticos. Lembrando que o próprio Heidegger recusava o termo existencialista para si, e que a sua vasta obra é fonte inesgotável para estudos, o que apresento abaixo é um breviário do conceito central de Heidegger, o Dasein, onde aí, a meu ver, revelam-se as múltiplas possibilidades do pensamento heideggeriano enquanto contribuições fundamentais para o existencialismo.

O homem não é um ente, não é uma coisa aí, estática, congelada. Diante da impossibilidade de um conhecimento do Ser como objeto, com determinados princípios característicos, Heidegger cria o conceito de dasein para buscar apreender o “ente”, o ser. Mas é lógico que o dasein não é mais do que um modo de ser, é ontológico como sendo um ente para o qual, em seu ser está em jogo o seu próprio ser, mas o dasein só pode ser o “meu” quando penso em compreendê-lo. Nesse sentido, os demais entes são ônticos. O dasein não pode ser apreendido como essência, pois nele reside a existência e existir é estar aí, lançado no mundo com todos os seus possíveis e impossíveis. Podemos buscar uma “compreensão existencial”, mas nunca um fechamento do dasein como sendo algo da ordem do é.

O dasein já está no mundo, portanto, não pode ser constituído como isolado senão como ser-no-mundo que já é o seu próprio aí, seu ser. Assim, possui caráter aberto. Sua abertura não significa conhecimento, mas um “existencial” que fundamenta e cria o conhecimento. Para o ser-no-mundo, há 3 elementos fundamentais:

a) situação original: o sentimento, literalmente, de estar aí, uma estado de “espírito” que se percebe como existente em sua facticidade. Chama-se abandono esse fato de estar lançado no mundo: jogado e abandonado no mundo para existir – o que não significa que o foi jogado por uma entidade divina para poder existir

b) compreensão: não enquanto conhecimento, mas no sentido de “estar diante de [alguma coisa]“, é na compreensão, nas múltiplas interpretações que reside o dasein como nunca sendo algo dado para sempre, mas aquilo que ele pode ser. Aqui está presente um conceito que Heidegger chama de projeto (não enquanto um planejamento de se ser!), que diz respeito à forma existenciária de poder-ser.

c) discursividade: Heidegger foi um grande estudioso da linguagem. “O homem habita a linguagem”. A discursividade diz respeito à linguagem, mas não somente. Ela é a articulação do ser-no-mundo com a sua inteligibilidade de ser.

O dasein se revela na angústia. A angústia não é medo, pois não se encontra em lugar algum, não está em um objeto embora eu possa nomear ou representar algo como sendo uma fonte de angústia. A angústia na obra de Heidegger é ontológica, sua fonte é o mundo como tal. Como não estando em parte alguma, a angústia é a própria possibilidade-de-ser-no-mundo. É na angústia que o dasein se revela como uma facticidade em seu ser-no-mundo.

Esses elementos aqui colocados foram os que utilizei como primeiras reflexões antes de partir para a obra do próprio Heidegger, que estou longe de ser um profundo conhecedor. Outro elemento que utilizo como “fechamento” para esse resumo inicial é o de cuidado, que diz respeito ao dasein estar sempre transcendendo a si mesmo, na medida em que nunca se fixará em um é como sendo algo pronto e acabado. Em torno desse conceito está presente uma série de elementos a ser conhecidos como características do dasein, tais como todo o seu fazer, desejar, teorizar, explicar, etc.

Com muitas ressalvas do caráter resumido do exposto acima, que não aborda outros elementos centrais na obra de Heidegger que são o tempo e a morte (o dasein é também ser-para-a-morte), creio que talvez possa ser útil para aqueles que se interessam pelos pensamentos de um dos espíritos mais férteis da modernidade e diferenciado na história da filosofia. Certamente que o leitor interessado, diante da complexidade do assunto, não ficará preso a um só resumo.

Fonte: 
Safranski. R. Heidegger: um mestre da Alemanha entre o bem e o mal. Ed.: Geração Editorial, 2001.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010


Houve um tempo em que o mundo dos Legionários de Cristo era simples. De um lado, uma congregação católica em plena ascensão, fundada em 1941 por um homem excepcional - um "santo", acreditavam muitos legionários -, que havia ganho a confiança de diversos papas. Do outro, os inimigos da Igreja, determinados a destruir com calúnias a reputação e a obra do criador, o padre mexicano Marcial Maciel.Durante meio século, esse discurso foi um escudo eficaz. Implantada em 22 países, a congregação dos Legionários forneceu à Igreja mais de 800 padres (95 dos quais ainda foram ordenados dia 12 de dezembro em Roma), possui 2.500 seminaristas, conta com um apostolado de 60 mil laicos, administra 200 escolas e universidades, movimenta um orçamento anual de US$ 650 milhões.Mas ela atravessa hoje uma crise muito grave, que poderá comprometer a imagem de seu principal protetor, o papa João Paulo 2º, que deve ser beatificado este ano. Ainda dominante quando os Legionários haviam aberto suas portas ao mundo, no início de 2006, o perfil de Marcial Maciel sumiu de seu website, exceto pela seção "história". Não se cogita mais tê-lo como modelo para a juventude, como João Paulo 2º fizera em 1994.


No início de fevereiro de 2009, o "New York Times" revelou que o Padre Maciel, falecido um ano antes aos 87 anos, havia levado uma "vida dupla" e gerado "pelo menos" uma filha, que mora em Madri. No fim de agosto, soube-se da existência de três filhos mexicanos, nascidos de uma outra mãe, mas que tinham contato com sua meia-irmã. Além disso, Maciel teria tido um filho no Reino Unido, bem como uma filha francesa, morta em um acidente de carro. Em meados de dezembro, surgia a notícia de que ele também seria um plagiador.Nenhuma dessas informações foi desmentida pelos Legionários, que se esforçaram para abafar os seguidos choques. Mas o mal-estar foi proporcional ao silêncio imposto por tanto tempo: por meio de um "voto especial", retirado somente em 2006, os padres dos Legionários eram proibidos de criticar seus superiores."Era uma espécie de pacto mafioso", afirma o sociólogo e psicanalista mexicano Fernando Gonzalez, autor de dois livros sobre o "caso Maciel", para os quais ele pôde consultar 201 documentos dos arquivos secretos do Vaticano, datados de 1948 a 2004. "Hoje, os Legionários devem confessar a parte heterossexual de seu fundador, por não ter reconhecido os abusos pederásticos". Pois nessa demolição progressiva de uma figura paternal outrora venerada, o pior sem dúvida está por vir.Se os atuais dirigentes da congregação ainda esperam extirpar o tumor da forma mais limpa possível, parte da hierarquia católica não mede suas palavras, sobretudo nos países marcados por escândalos eclesiásticos, como a Irlanda ou os Estados Unidos. Para o arcebispo de Baltimore, Edwin O'Brien, Maciel é um "empresário genial que, com vigarices sistemáticas, se utilizou da fé para manipular os outros em função de seus interesses egoístas".Em maio de 2009, o Vaticano nomeou uma comissão de investigação, composta por três bispos e dois outros religiosos, entre os quais um jesuíta. Uma primeira "visita apostólica", em 1956, deveria examinar o vício em drogas de Maciel, mas também os abusos sexuais cometidos sobre os noviços. Ela havia terminado em uma espécie de arquivamento, que por muito tempo impediu qualquer denúncia pública, ainda que o principal investigador tenha manifestado suas desconfianças em um relatório confidencial. "Todos nós mentimos", confessou mais tarde Felix Alarcon, um dos adolescentes entrevistados na época, para salvar "um padre que adorávamos", e que eles tinham como "acima da Igreja", revela um de seus colegas. A exuberante atividade heterossexual do fundador dos Legionários semeou outros espinhos. Seus três filhos mexicanos (33, 29 e 17 anos), bem como a meia-irmã deles, Norma Hilda, 23, às vezes viajavam com seu pai - e até o acompanharam no Vaticano! -, que lhes escrevia sob um nome falso cartas carinhosas e cheias de erros, em papel timbrado de hotéis do mundo inteiro, para se desculpar por ser um "homem de negócios" tão ocupado. Hoje, eles pedem aos Legionários por um reconhecimento oficial, mas também por parte de sua herança.O que teria acontecido, por exemplo, com o fideicomisso (testamento por meio de um terceiro) que Maciel teria criado para eles na Suíça, e sobre o qual ele tivera o cuidado de falar? "Os Legionários somente lhes mostraram os documentos de uma conta nas Bahamas, que está vazia", ressalta o advogado dos filhos mexicanos, José Bonilla, durante uma entrevista recente no México para o "Le Monde". Para José Barba, um ex-legionário que em 1998 prestou, junto com outras sete vítimas, uma queixa perante o Vaticano, é preciso se questionar sobre "a passividade da Igreja, e as estruturas que permitiram que esses abusos se perpetuassem por tanto tempo: agora dizem que Maciel era um monstro, ao mesmo tempo em que sugerem que os Legionários têm um grande futuro".Quem é esse homem que conseguiu levar, bem no coração do catolicismo, a vida desregrada de um astro do rock? Nascido em uma família antiga do Michoacán - seu tio materno, Jesús Degollado, foi general dos Cristeros, os insurgentes que tomaram as armas, de 1926 a 1929, contra o governo mexicano "jacobino" -, ele usava de sua sedução tanto junto a garotos sujeitos à disciplina da instituição, como junto a viúvas ricas de quem extorquiu fortunas para financiar suas obras.Segundo uma fonte próxima do Vaticano, trata-se de um caso patológico de distúrbio de personalidade. Maciel certamente fora violentado na infância, e fingia ter amnésia diante de suas vítimas. Mas o psicanalista Fernando Gonzalez não acredita em uma esquizofrenia: "Ele era um calculista malicioso que se adaptava perfeitamente a cada situação".Em um ambiente de repressão sexual extrema, ele se valia de suas "dores no fígado" - na verdade, uma inflamação crônica da próstata - para obter dos meninos o "alívio" proporcionado por injeções de morfina, mas também por masturbações ou penetrações. Para isso, ele garantia ter uma "permissão especial do papa". E no final ele não hesitava em absolvê-los do pecado ao qual ele acabava de incitá-los. Ora, a "absolutio complicis", ou absolvição do cúmplice, é uma grave infração do direito canônico, punida com excomunhão.Desde a ruidosa investigação em 1997 do jornal mexicano "La Jornada" e o "El Legionario", livro de Alejandro Espinosa, sobrinho e efebo de Maciel, vários livros trataram dessa personalidade diabólica, capaz de celebrar uma magnífica missa na capela, saindo da enfermaria onde o "santo" acabara de manipular os corpos e as almas na penumbra. "Nós éramos um arquipélago de solidões", escreve José Barba, evocando o longo sofrimento daqueles que sofreram abusos. Um dos filhos de Maciel tem dificuldade para superar: quando era criança, seu pai lhe repetia que era essencial não mentir.



Tradução Lana Lim

Fonte: UOL

Quando li esta matéria já estava ciente de muitos boatos. Acho esta matéria muito tendenciosa e direi porque.

Primeiramente aprendi a duras penas que quando você joga um travesseiro de plumas ao vento jamais conseguirá juntar pena por pena... Isto é, quando um fato surge dificilmente se detém ao fato isoladamente, sempre haverá a imaginação, a falta de bom senso e o falatório sobre determinado fato.

Lembrando para quem se esqueceu e ensinando para quem não sabe o falso testemunho deixa marcas eternas e por isso viver na verdade por mais que doa deve ser o caminho de qualquer pessoa.

As ofensas à verdade são:

1-O Falso testemunho e o perjúrio:

Quando se emite publicamente algo contrário à verdade, diante de um tribunal, é falso testemunho e quando se está sob juramento, é perjúrio. Isso pode contribuir para condenar injustamente um inocente ou inocentar o culpado. Prejudica o exercício da justiça pronunciada pelos juizes.

Respeito à reputação das pessoas:

É proibido qualquer atitude e palavra que cause um prejuízo injusto. Torna-se culpado:

2- De juízo temerário (imprudente):

Aquele que, secretamente, admite como verdadeiro, sem razão alguma, o defeito moral do próximo.

3- De malediscência:

Aquele que, sem razão válida, revela as pessoas que não sabem os defeitos do próximo e suas faltas.

4- De calúnia:

Aquele que, pela mentira, prejudica a reputação dos outros e causa falsos juízos a respeito deles. Para não cairmos no juízo temerário (julgar sem medir as conseqüências), temos que interpretar de modo favorável tanto quanto possível o pensamento, atos e palavras do próximo.

5- Malediscência e calúnia:

Mancham a reputação e a honra do próximo. Todos têm direito à honra do próprio nome, à sua reputação e ao seu respeito. Logo, a malediscência e a calúnia ferem as virtudes da justiça e da caridade.

6- Adulação, bajulação ou complacência:

Deve-se tomar muito cuidado com atos ou palavras que, por (bajulação), confirme e encoraje o outro na malícia de seus atos e perversidade. Adulação é falta grave quando cúmplice de vícios ou de pecados graves. Se torna um pecado venial, quando só quer ser agradável, evitar um mal, remediar uma necessidade, obter vantagens legítimas.

7- A jactância ou fanfarronice:

É uma falta grave contra a verdade e o mesmo vale para a ironia que é depreciar alguém caricaturando, de modo malélovo, seu comportamento.

8- A mentira:

É dizer o que é falso com a intenção de enganar. A mentira torna-se mortal, embora seja um pecado venial em si, quando fere gravemente as virtudes da justiça e da caridade. Sua punição varia de acordo com as circunstâncias, a intenção do mentiroso, as conseqüências sofridas por suas vítimas.

A mentira é uma profanação da palavra que tem como finalidade levar a verdade a outros e é condenável em sua natureza. Quando induzimos o próximo, através da mentira, a um erro estamos cometendo uma falta grave contra a justiça e a caridade. A culpa é maior ainda, quando a intenção é de enganar. Causa a morte para aqueles que são desviados da verdade.

A mentira é uma verdadeira violência ao próximo porque o impede de obter a capacidade conhecer, que é a condição de todo o juízo e decisão. Ela mina a confiança entre os homens e rompe o tecido das relações sociais.

Toda falta contra a justiça e a verdade impõe uma reparação, mesmo após o perdão. Não podendo reparar um erro publicamente, deve-se fazê-lo em segredo; se aquele que sofreu o prejuízo não puder ser indenizado, deve-se dar-lhe satisfação moral, em nome da caridade. Isso também é válido para as faltas cometidas contra a reputação dos homens.

Diante esta pequena lembrança deixo-vos com a seguintes perguntas e reflexões:

1 - Sabemos (eu vivi isso, vivo isso) que diante um fato se aumenta a proporção de qualquer acontecimento. As pessoas aumentam, inventam !!!!!

2 - Ele foi um homem como qualquer um e passível de erros. QUAL O PROBLEMA?

3 - E sua obra? O que ele deixou? Não há mérito nenhum nisso? Quer dizer que seja o que for que você tenha feito de bom se cair nada mais "presta", isto é, tudo é anulado?

4 - O mais importante: NÃO JULGUEIS E OLHEM SUAS PRÓPRIAS VIDAS ANTES DE FALAR DE QUALQUER UM, POIS O MAIOR PECADO ANTES DE TUDO É O ÓDIO E A INVEJA.

SEM MAIS.... REFLITAM... NINGUÉM É DONO DA VERDADE E PELO JEITO NÃO GOSTAM DE VIVER COM ELA....

Christiane.







terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Normose: Uma fábrica de clichês


Boa parte dos normóticos está limitada pela identificação corporal. Não possuem a consciência de que é justamente esse tipo de limitação sem fundamento que os mantém longe de qualquer possibilidade de estados alterados de consciência. O normótico, quando não há nada para fazer, pensa em todas as possibilidades de atividades, menos, tentar se sentar e experiênciar o Ser; é alguém que sofreu a ferroada do não ser, a dor de uma vida não vivida, das estradas não exploradas, dos riscos não sofridos, das pessoas não amadas, dos pensamentos não realizados e dos sentimentos não apreciados. Sua normose é fruto do resultado do pecado da omissão. É alguém que passa muito de seu tempo se iludindo, deliberadamente, criando álibis para encobrir suas fraquezas e que não possui a consciência de que se utilizasse seu tempo de maneira diferente, esse mesmo tempo seria suficiente para curar seus defeitos de caráter e imperfeições, de modo que então não seriam necessários os álibis.

O normótico vive principalmente para si próprio e sua família. Em raríssimos casos existe qualquer visão mais elevada do que essa. Poucos são capazes até mesmo de dar um olhar em direção aos pedintes que vem em sua direção nas paradas do trânsito. Quase toda sua experiência é a de viver para si mesmo e sua família, com apenas um minúsculo fragmento deixado para os outros.

Quanto a mensagens de cunho espiritual, as rejeita por medo de que suas verdades possam lhe convencer e ter, então, de abandonar seu modo de vida disfuncional com suas conseqüentes zonas de conforto. Devido a esse tipo de medo, vive sob a custódia de uma elite dominante da mesma forma como o gado está sob os cuidados dos boiadeiros. Não raro são às vezes em que se obriga a fazer coisas das quais se envergonha, alegando quando descoberto, que está cumprindo com o seu dever; é um ser que sofre devido à alienação e desconexão com o Ser que o faz ser. Em nome da aceitação condicionada por parte das pessoas significativas de sua vida, negligencia a si mesmo, abandonando-se e fechando-se para o mundo devido ao medo de ser exposto à vergonha tóxica e a dor da solidão, tendo como resultado dessa atitude, o desenvolvimento da incapacidade de amar de forma incondicional.

O normótico é aquele que se conforma em ouvir sobre Deus, rezar para Deus e pela espera de um encontro com Deus no próximo mundo: alguém que não consegue sair da crença para ousar pela busca da experiência. Não tem a percepção espiritual, que torna Deus uma realidade demonstrável; está convencido de que Deus é uma necessidade, mas ainda não está convencido de Deus. Prefere se agarrar na concepção oriunda da experiência pessoal de Deus vinda de terceiros. Vive preso a um ciclo compulsivo de hábitos, comportamentos e relacionamentos profissionais e/ou afetivos mesmo que seus prazos de validade estejam vencidos e repetidamente se mostrando disfuncionais. Sua falta de sinceridade para consigo mesmo é uma das maiores e mais potentes barreiras do processo de vir-a-ser. A insinceridade corrói a integridade de sua Alma e destrói o fortalecimento da razão. Vive aprisionado a um modismo social que determina um comportamento padronizado dentro de uma sociedade mecanicamente padronizada e com isso, autoboicota todo seu potencial criativo. Se ao menos soubesse da existência de um estilo de vida imensamente mais rico e profundo do que toda essa existência apressada - dotada de serenidade, paz e poder, sem pressa - se soubesse como a vida interior é realmente poderosa, não hesitaria nem um instante em abandonar todas as coisas que barram seu caminho para ir em direção a ela e assim constatar por si mesmo, que tudo aquilo que a normose tem para lhe oferecer para beber é tão somente um copo d´água salgada, cujo propósito é o de lhe deixar ainda mais sedento.

Normose




Lendo uma entrevista do professor Hermógenes, 86 anos, considerado o fundador da ioga no Brasil, ouvi uma palavra inventada por ele que me pareceu muito procedente: ele disse que o ser humano está sofrendo de normose, a doença de ser normal.

Todo mundo quer se encaixar num padrão. Só que o padrão propagado não é exatamente fácil de alcançar. O sujeito "normal" é magro, alegre, belo, sociável, e bem-sucedido. Quem não se “normaliza" acaba adoecendo. A angústia de não ser o que os outros esperam de nós gera bulimias, depressões, síndromes do pânico e outras manifestações de não enquadramento. A pergunta a ser feita é: quem espera o que de nós?

Quem são esses ditadores de comportamento a quem estamos outorgando tanto poder sobre nossas vidas? Eles não existem. Nenhum João, Zé ou Ana bate à sua porta exigindo que você seja assim ou assado. Quem nos exige é uma coletividade abstrata que ganha "presença" através de modelos de comportamento amplamente divulgados. Só que não existe lei que obrigue você a ser do mesmo jeito que todos, sejam lá quem for todos. Melhor se preocupar em ser você mesmo. A normose não é brincadeira.

Ela estimula a inveja, a auto-depreciação e a ânsia de querer o que não se precisa. Você precisa dequantos pares de sapato? Comparecer em quantas festas por mês? Pesar quantos quilos até o verão chegar? Não é necessário fazer curso de nada para aprender a se desapegar de exigências fictícias. Um pouco de auto-estima basta. Pense nas pessoas que você mais admira: não são as que seguem todas as regras bovinamente, e sim aquelas que desenvolveram personalidade própria e arcaram com os riscos de viver uma vida a seu modo. Criaram o seu "normal" e jogaram fora a fórmula, não patentearam, não passaram adiante. O normal de cada um tem que ser original. Não adianta querer tomar para si as ilusões e desejos dos outros. É fraude. E uma vida fraudulenta faz sofrer demais.

Eu não sou filiada, seguidora, fiel, ou discípula de nenhuma religião ou crença, mas simpatizo cada vez mais com quem nos ajuda a remover obstáculos mentais e emocionais, e a viver de forma mais íntegra, simples e sincera. Por isso divulgo o alerta: a normose está doutrinando erradamente muitos homens e mulheres que poderiam se quisessem ser bem mais autênticos e felizes.


Fonte: 05.08.07-Jornal Zero Hora-P.Alegre-RS - Por: Martha Medeiros

Imagem: http://lh3.ggpht.com/_4Cj2S6Slhw8/Sb2vE8Q6mjI/AAAAAAAABlc/lyc5tNqp-yc/s400/lapidando.JPG


ATENÇÃO: A responsabilidade deste artigo é exclusiva de seu respectivo autor (fonte).

Uma doença chamada “normose”




Antes que você comece a ler este texto, nosso convite é:
que tal a "anormalidade"? - Turma Doce Limão

Por Prof. Hermógenes *

O mundo “normal” nos atrai. Enquanto atrai, nos distrai.

E porque nos distrai, nos trai. Se nos deixamos trair, ele nos destrói.

É hora de despertar!

Sinceramente: ”Deus me livre de ser normal”.

Desde que comecei a caminhar no Yoga venho conseguindo manter uma bendita e invejável “anormalidade”. Eu já fui “normal” e não tenho saudades.

Venho estendendo meu convite a todos para que comecem a sua “desnormalização”. E, este meu convite é uma expressão de amor ao homo sapiens, à minha espécie.

Será absurdo clamar aos homens e mulheres desta sacrificada, caótica, amoral, violenta, injusta, vazia, entediada, poluída, cruel, amalucada e decadente sociedade em que vivemos que tomem consciência, e não mais continuem a submeter-se inconscientemente a esta lógica, obsedante e patológica “normalidade”?

Será estranho o meu clamor aos acomodados ou rendidos que se rebelem e se libertem?

Será mesmo descabido a proposta de uma terapia que pretenda curar esta doença que vem sendo chamada “normalidade”, "normose"?

O homem “normal” é um doente!

Quando se diz “em terra de cego quem tem um olho é rei”, está se dizendo que a cegueira é o “normal”. Nesse caso, o “anormal”, aquele que vê, é bastante melhor, tanto que pode ser o “rei”.

Há décadas, o Papa Paulo VI diagnosticou a sociedade de seu tempo, dizendo: “O mundo está doente”. Você contesta? Ou constata?

Considerando somente as aparências, isto é, aquilo que a mídia (imprensa, rádio e TV) fez aparecer, o mundo parece estar em acelerada degradação, parecendo um filme de terror, escorregando para a tragédia. Visando vender para os “normóticos”, para a massa ignorante (que ignora e faz tudo para seguir ignorando), desprovida de discernimento – e, sem dúvida, padecendo de acentuado distúrbio sadomasoquista, que se deleita no consumo de notícias mórbidas, de sujeira, crueldade e pavor -, os grandes veículos se aprimoram em acentuar as tintas negras, os sintomas alarmantes, ao dar publicidade predominante ao lado enfermiço da humanidade.

E não é somente a imprensa que vende tais aspectos e componentes trágicos, doentes e poluídos da sociedade humana; a sub-arte também. Cinema, fitas de vídeo, novelas, casas de espetáculo exageram os aspectos chocantes, aberrantes, teratológicos (estudo das monstruosidades), mórbidos, poluentes e sórdidos das vidas de homens e mulheres.

E os alimentos? A propaganda infantil é a mais cruel de todas, porque já incentiva ao consumo de alimentos que danifica seus corpos, cérebros e mentes.

Os teóricos argumentam que isto é a realidade e é assim que deve ser mostrada. O que é assim não é a realidade, mas apenas um setor da sociedade, aquele que alguns irresponsavelmente acham de vitrinizar. Alguma parte da sociedade é de gente boa, equilibrada, sadia, espiritualmente nobre e bonita ("anormais"), mas alguns obsessivamente fazem questão de ignorar.

Quantas pessoas e instituições sociais, mantendo-se com enormes sacrifícios, se devotam à prestação de generoso serviço, a distribuir caridade, a cultivar espiritualidade, a manifestar amor, a anunciar a luz, a propor a paz…?

Um diagnóstico correto não pode ser parcial.

Tudo que existe é assim com seus dois pólos. No entanto, enquanto os abutres só conseguem se interessar pela carniça, as abelhas são atraídas somente pela beleza, doçura e fragrância das flores. Aos que não vêem a não ser o lado mórbido das coisas, um convite: dialoguem com as abelhas. A sociedade está doente pela hipertrofia de seu lado abutre com simultânea atrofia de seu lado abelha (assim já falava Sócrates). Há treva e luz, e não somente treva. Há ódio. Por que não o amor? Há violência, mas também há caridade Há corrupção, mas honestidade não falta.

Por que somente o diagnóstico negro?

A maioria imensa da humanidade é formada pelos “normóticos”, que desfrutam o tempo e o espaço cultural, e aí está a doença.

A minoria dos curados de uma enfermidade chamada “normose” não pode continuar sendo esquecida. É verdade que a humanidade está enferma, e está exatamente pelo predomínio e pela ação dos medíocres e ignorantes que a integram (porque assim decidiram, "normoticamente").

É inadiável curar a “normose” da humanidade. E isto deve começar pela “desnormalização” de cada pessoa, o que requer, indispensavelmente, empenho e esforço pessoal depois de feita a opção por uma disciplina inteligente, por uma vigilância contínua e por jubiloso auto-sacrifício do ego no altar do Divino.

De minhas observações durante tanto tempo, fiz levantamentos dos sintomas que, com maior freqüência, os “normóticos” apresentam. A lista não é completa e nem um “normótico” qualquer tem de ter todos estes sintomas. Não pretendo que este inventário seja perfeito. Quando alguém conseguir inventar um “normômetro” (aparelho capaz de medir a “normalidade” de uma pessoa), prestará um serviço inapreciável à Medicina Holística, para diagnosticar a “normose”.

Os “normóticos” têm reduzidas a juventude e a vida. As doenças degenerativas apressam a se manifestar antes do tempo. E ainda é motivado por distresse. Desprovido de um motivo, elevado, sublime e nobre para viver, desde que seus objetivos são mesquinhos e imediatistas, o “normótico” desconhece o que seja equanimidade, sobriedade, serenidade e paz. São fáceis vitimas dos opostos-de-existência. (Bi-Polares) Oscilam, indefesos e inconscientes, como folhas ao vento, sem repouso e sem destino. Numa hora, festejam ruidosa e às vezes alcoolicamente uma fugaz vitória ou uma aquisição furtiva. Noutra, se deprimem e lamentam, quando alcançados por um imposto despojamento de algo que não resistiria ao tempo. A “normalidade” dominante ensinou o “normótico” a lutar até exaurir-se e a usar todos os meios (até, quando preciso, os sujos) na convicção pouco inteligente de “ganhar ou… ganhar". Eles repelem a abnegação, a renúncia, a aceitação (adulta, madura) do inevitável (da realidade).

Desconhecendo o por que e para que viver, o “normótico”, é uma carta depositada no correio, na qual falta indicação do destinatário e do remetente. É uma carta que foi escrita inutilmente. Seu destino só pode ser a posta-restante.

Vivendo na superfície de si mesmo, o “normótico” age sob motivações que, em alguns casos, são bem tipicamente animais: comer (qualquer coisa goela abaixo), beber, defender-se, gozar e transar. Não cultiva (portanto não colhe) valores tipicamente humanos: verdade (ou veracidade); retidão; paz; amor (universal e puro); e não-violência. Sai Baba disse que a constatação “eu sou um ser humano” é apenas a metade da verdade. A outra metade é poder dizer: “eu sou anormal”.

O “normótico” é um consumista obsessivo. Compra o que "precisa", o inútil. O que ele não pode é resistir às manobras da publicidade e do marketing. Ele sofre da síndrome de “aquisitite”. Para seguir comprando, comprando, gasta e se desgasta ansiosamente, obsessivamente.

Com a palavra “mesmismo” Erich Fromm denominou o fenômeno de cada um precisar se parecer com o outro. O “normótico” calça os mesmos tênis, veste as mesmas calças, bebe os mesmos refrigerantes, fuma as mesmas marcas, se fanatiza pelos mesmos ídolos populares, curte as mesmas músicas, demonstra, com isto, que sua segurança está em “ser normal”; falta-lhe a salvadora coragem de ser "anormal". Quanto mais “normótico”, mais submisso aos modelos da normalidade e imediatismo. Esta tendência a entregar-se indefeso e inconsciente à robotização orquestrada pela propaganda massifica-o, esvazia-o. E é ainda pior quando se fanatiza por movimentos, líderes, seitas etc.

Porque nem imagina quanto o amor e a felicidade nos completam, o “normótico” confunde os simples desvarios sexuais (mero atrito, zero afeto e amor) com ser feliz. E o sentimento de posse do outro e o ciúme, que são apego-dependência, ele confunde com amor.

Na ânsia por uma mal-entendida liberdade, certos “normóticos” neuróticos confundem o ser feliz com o ser devasso, “assumido”, “liberado”, e se sentem à vontade em “curtir um barato”, embora depois recaiam trágicas conseqüências sobre ele: escravidão ao traficante (marcas), AIDS, demência. Ao que não sabe o que é a verdadeira liberdade, eu lembraria que é a capacidade de não fazer aquilo que não se quer ou que se precisa não fazer (o coração decidiu). Não é o fazer aquilo que se deseja fazer. Muitos jovens, confundindo a liberdade com outra coisa, às vezes rompem com violência seus vínculos com o lar, e se entregam a uma aventura, que, a principio, pode até ser uma aventura, mas inevitavelmente acaba em desventura.

Há uma forma “normóide” de exercer poder político, econômico e social, na qual o “normótico” sempre tira proveito pessoal, indiferente à dor, à miséria, à injustiça que impõe às multidões de infelizes. Calígulas e Neros de gravata, os “normóticos” poderosos são pragas a fazer muitas vítimas.

Toda a minha literatura tem sido voltada para alertar os “normóticos”, convidando-os para dar uma guinada no rumo da verdadeira paz, do amor bem-aventurado, no rumo da sabedoria que liberta, da saúde, da alegria pura, da "anormalidade", finalmente da vida abundante.

* Dr. José Hermógenes de Andrade Filho (Natal/RN, 9 de março de 1921), é escritor, professor e divulgador brasileiro de hatha yoga. Doutorado em Yogaterapia pelo World Development Parliament da Índia e Dr. Honoris Causa pela Open University for Complementary Medicine. Recebeu a Medalha de Integração Nacional de Ciências da Saúde e o Diploma d’Onore no IX Congresso Internacional de Parapsicologia, Psicotrónica e Psiquiatria (Milão, 1977). Eleito o Cidadão da Paz do Rio de Janeiro, em 1988, e a Medalha Tiradentes em 2000. A premiação foi conferida pela Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, pelo bem-estar e benefícios à saúde que suas obras levam para os brasileiros. É fundador da Academia Hermógenes de Yoga.

FONTE:

http://www.docelimao.com.br/site/terapia-do-riso/o-conceito/873-uma-doenca-chamada-normose.html

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010


FONTE: http://edsongil.wordpress.com/2009/04/29/a-cama-onde-cresce-a-solidao-das-mulheres-livres/



"Debaixo dos cobertores"


por LUIZ FELIPE PONDÉ

SE VOCÊ for convidar uma colega de trabalho para sair, melhor pedir a seu advogado para ligar para o advogado dela, pois “desejo é poder”. Nos EUA, órgãos especializados em assédio sexual em universidades são tão comuns quanto baratas em casas sujas. Políticas públicas podem causar efeitos colaterais nefastos. E as coisas só pioram com a epidemia de políticas públicas, marca de uma democracia cada vez mais maníaca por regular a respiração de seus súditos.

Há uma relação invisível entre os mecanismos modernos de controle e a paranoia. Paranoicos detestam a liberdade porque ela é incontrolável e promíscua.

Desde o utilitarista Jeremy Bentham (século 18) e seu panóptico (máquina para vigiar prisioneiros), os governos sonham com o controle “benéfico” do comportamento moral da coisa pública (res publica) via mecanismos de vigilância contínua.

Dizia o sociólogo Robert Nisbet (século 20): é uma ilusão supor uma vocação evidente da república para a liberdade. Quanto mais moral ela for, mais totalitária ela será. Ainda Nisbet: os especialistas, com suas visões sectárias e pouco isentas, são agentes de destruição da liberdade quando se fazem oráculos. Nas ciências humanas, temperamentos e ressentimentos determinam a escolha de objetos e teorias.

Respiramos a “politização do amor”. Grande parte dos oráculos das políticas do amor é gay ou feminista. Os gays têm pouco interesse (por razões óbvias) nos efeitos colaterais de sua “ciência” do amor sobre o cotidiano miúdo dos homens que amam mulheres. Quanto as feministas, quando não são também homossexuais, se mostram, muitas vezes, rancorosas e repetitivas: do que trata “Hamlet”? Opressão da mulher. E a Bíblia? Idem. E adivinhe qual a questão no Pato Donald?

O argumento (feministas são rancorosas), nada científico, é usado pelas próprias mulheres cansadas das feministas neandertais que ignoram as agonias das mulheres já livres.

Já nos anos 70, feministas como as do grupo de Taipe afirmavam que apenas lésbicas seriam de fato mulheres emancipadas, porque as heterossexuais seriam oprimidas pelo desejo que sentem pelo macho.Para elas, o amor heterossexual flertaria com o “inimigo”. Eu, ao contrário, penso que este tema deveria ser tratado justamente por quem “ama o inimigo”.O impacto no cotidiano deste “antiamor” se dá via arte, leis, educação, enfim, os oráculos de Nisbet.

O resumo da ópera é o seguinte: a mulher ganhou dinheiro e com isso deu um pé no mau marido, que existem aos montes porque a regra geral é a insatisfação. As feministas acertam quando dizem que o homem teme a mulher (não por conta dessa bobagem de “inveja do útero”, ele tem mais é “medo da dor do útero”), mas sim pelo medo do fracasso sexual diante dela. As neandertais tratam dessa ferida com ácido.

Mas a vida real vem à tona, quando sai de cena a militância e entra em cena a cama onde cresce a solidão das mulheres livres.Não se trata de dizer que as mulheres “devam voltar para o tanque” -isso é idiota-, mas sim que as feministas neandertais só atrapalham quando levam a política para debaixo dos cobertores. Fiquem nas delegacias e sindicatos, lugares onde a vida é pobre e bruta.

Dizem as mulheres: queremos homens sensíveis, mas nem tanto, queremos ter sucesso profissional, mas jamais sustentar homens sem sucesso profissional (dividir contas sempre já seria sinal suficiente de pouco sucesso por parte do parceiro), queremos ser livres, mas não homens bananas.

Mulheres não suportam homens tristes. Seria, afinal, o sucesso profissional dos machos um critério definitivo do desejo das fêmeas por eles? Quando o homem deve começar a dizer “não” a suas mulheres livres?A noite vazia é o paraíso dos homens e mulheres livres. Nela, eles respiram a banalidade das conquistas repetidas. Uma infinidade de seduções insignificantes.

O acúmulo das experiências múltiplas gera uma consciência afetiva cínica. Assola-me o sentimento profético de que quanto mais experimento, menos sou capaz de experimentar. Na juventude a solidão é opção, com o tempo não passa de falta de opção. Ao mesmo tempo em que as rugas nascem o corpo cansa e a alma desespera.

As políticas do amor são um dos modos mais sofisticados de barbárie “científica”. Haveria uma relação invisível, como um fantasma obsessivo, entre ódio e políticas do amor?



Fonte do artigo : http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2704200917.htm

 

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