terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Por Christiane Forcinito


Refletindo nas mais variadas problemáticas que cercam o homem vou me ater na aparente contradição da fé versus a ciência (ou razão) sob o olhar de Pascal na busca da própria identidade deste. Esta questão que é discutida desde o século XIII até hoje suscita paradigmas, dúvidas, ou seja, norteia ações.

Este tema tem os primórdios desde o século XIII, passando pelo iluminismo, entrando no século XIX (com o auge da ciência explicando toda a realidade) e chegando até os dias de hoje. Muitos filósofos tentaram de alguma forma separar ambas as esferas como uma espécie de busca pela autonomia e liberdade, porém como desejo mostrar aqui, é que a fé e a razão podem andar juntas sem nenhuma contradição, assim como escreveu o Papa João Paulo II na encíclica “Fides et ratio” de 1998, p 3 escreveu: “A fé e a razão constitui como que duas asas pelos qual o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade”.

Os posicionamentos de Pascal pode até tumultuar o raciocínio e a busca de identidade do homem contemporâneo, pois ele traz questões ontológicas que obrigam o homem a agir de forma coerente e firme. Ele viveu numa época onde havia uma valorização da geometria e sua lógica, porém Pascal partiu para discutir questões mais existenciais. Hoje também podemos perceber que não vivemos em um mundo muito diferente na questão entre a lógica do mundo e as questões existenciais.

Pascal, a meu ver, sabiamente afirmou que a lógica geométrica (de sua época) não cabe ao homem por ele ser um elemento diferenciado e “irregular” e que o estudo deste permite o princípio da não contradição. Hoje há essa mesma dinâmica, pois a ciência tenta e quer superar esta contradição quando na verdade a contradição é próprio elemento da existência humana e em nada abala a relação entre a fé e a ciência.

Vivemos em um mundo onde impera a corrente chamada relativismo, a qual nega toda a verdade e a ética absoluta, ficando a critério de cada um seguir a “sua verdade”, isto é um subjetivismo onde o que interessa é o eu e suas ações que a priori “aparenta” liberdade e autonomia, nada mais é que uma ação pautada na ação da “maioria”.

O filósofo naquela época já afirmava que o homem é feito para o divino, pois o homem possui uma insuficiência, isto é, ele é ontologicamente dependente do Criador. Esta insuficiência representa a idéia da natureza “decaída” pelo homem através do pecado original. Este (homem) rompeu com o primeiro plano do criador resultando na impotência deste dar conta de se conhecer se não tiver atento a uma voz superior, pois ele está desarmonizado, há uma disjunção que se manifesta em forma de contradição.

Hoje não estamos muito diferentes. Todos querem ter um rumo e o homem aspira naturalmente à verdade, porém não compreende a lógica do sofrimento, tem medo do comprometimento seja ele político, profissional, pessoal, social, filosófico ou mesmo religioso. Hoje alguém procura uma religião por uma “necessidade psicológica”, ou partem logo para uma prática ateísta achando que um dia a ciência vai explicar tudo (materialismo promissório). Outros, porém, acredita que como não há evidencia de Deus ele pode existir ou não. Há os que afirmam que Deus não existe. Ainda há aqueles ceticamente suspendem seus juízos. E por último podemos distinguir ainda aqueles que acreditam que Deus é tudo e desabam num panteísmo sem fronteiras, não se comprometendo com nada e com tudo, isto é, jogando de tudo (que não conseguem explicar) um pouco dentro do balaio e verificando o que lhe cabem ou o que é “melhor”.

Logicamente esta visão que diz a fé ser contraditória à razão já vem de um histórico mal compreendido, isto é, quando não se estudam a fundo a questão de Deus, quando não conseguem compreender a lógica do sofrimento ser ou não compatível com a infinita bondade de Deus resultam em um preconceito achando que Deus tira a liberdade do homem (quando na verdade os liberta) interpretando fatos históricos erroneamente.

Outra grande questão que também é associada a essa aparente contradição consiste em confundirem fé com crendice. São coisas totalmente diferentes, isto é, a fé é a investigação movida pela inteligência e a crendice é apenas um senso religioso inato no homem, mas desligado da razão. A ciência/razão não abala a fé. A razão quando bem conduzida leva à fé, pois a verdade não se limita a que a razão humana limitada alcança!

Nietzsche, ferozmente e ressentidamente, dizia que a fé é não querer saber o que é a verdade. Kant, embora não pôs em dúvida o valor objetivo da fé, quando responde a pergunta o que é “Aufklärung” erroneamente diz que a menoridade em coisas da religião é danosa e humilhante, o que eu discordo, pois lendo este texto o interpreto de forma contrária dizendo que a menoridade é justamente quando nos comportamos iguais crianças querendo fazer tudo que queremos sem pensar ou medir conseqüências, fazendo birra, gritando e nos jogando ao chão.

Outros filósofos também tentaram de alguma forma formular a questão da identidade do homem dissociando a fé da razão. Entre eles estão também Feuerbach afirmando que Deus foi inventado pelo homem devido ao medo e que este o leva ao fanatismo e ao erro; Marx, por sua vez é feroz quando diz que o homem gosta de se iludir e por isso Deus foi criado. Comte, com seu positivismo, separam ambas as esferas dizendo que o homem positivo ultrapassa o homem religioso que por sua vez este se encontra na “infância”.

Pascal defende que o homem deve estar aberto a Deus e se atrelando a Este se torna preenchido, ou seja, esta “dependência” não é algo negativo, pois abre o homem à “graça”, ao sobrenatural e também representa a idéia de natureza (carne e espírito) se harmonizando como no princípio assim seria. O contrário implica na queda e isso sim é negativo, pois o homem no pecado (sem a “graça”) perdeu a capacidade de fazer o bem deixando a solta a sua inclinação a fazer apenas o mal.

Atualmente, sem querer generalizar, percebe se que o “homem” se “coisificou” quando deixou de ser filho do criador para ser apenas mais uma espécie animal. Toda identidade está comprometida resultando num “descompromisso” engendrado no conceito que o próprio homem tem de si. Enquanto ele fica a procura de sua identidade no mundo, nas coisas e nas pessoas acaba se esquecendo que seu dia a dia tem valor redentor e santificante e que conhecendo a Deus para conhecer a si mesmo nasceu para amar e ser amado.

Concluo este artigo com as palavras que próprio Pascal que assim escreveu:
“Os homens desprezam a religião; odeiam-na e temem que seja verdadeira. Para acalmá-los, é preciso começar mostrando que a religião não é contrária à razão; que é digna de veneração e respeito; em seguida, torna-la amável, fazer com que os bons desejem que seja verdadeira, digna de veneração, pois conhece exatamente o homem; amável porque promete o verdadeiro bem.” [1]

Bibliografia

CASSIRER, E. Antropologia filosófica. 2 ed.São Paulo: Mestre Jou, 1977.

FRANCA, Pe. Leonel. Noções de história da filosofia, 20 ed. Rio de Janeiro: Agir, 1969.

JOÃO PAULO PP. II, Carta Encíclica. “Fides et ratio” aos Bispos da Igreja Católica sobre as relações entre fé e razão. 1998.09.14 [online] disponível na internet via www. URL: http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_15101998_fides-et-ratio_po.html

KANT. Immanuel. Resposta à pergunta: O que é esclarecimento (Aufklãrung). Königsberg, 1784.

LIMA VAZ, Henrique C. Antropologia filosófica. 7 ed. São Paulo: Loyola, 2004. VI

MONDIN, Battista. Introdução à Filosofia. 16 ed. São Paulo: Paulus, 2006.

_______________. O homem, quem é ele? 12 ed. São Paulo: Paulus, 2005.

_______________. Quem é Deus? Elementos de teologia filosófica. São Paulo: Paulus, 1997.

NIETO, José Lino. A vontade de poder: Nietzsche, hoje. São Paulo: Quadrante, 2004.

TRESE, Leo. A fé explicada. 7 ed. São Paulo: Quadrante, 1999.
[1] - PASCAL, Pensieri, br.187 apud MONDIN,Battista. Quem é Deus? p.48.

2 comentários:

João on 17 de agosto de 2010 13:55 disse...

Exelente o artigo da Filosofa Christiane Forcinito. Vivemos em um período que poucos tem a sensibilidade de expor e falar sobre a relação entre fé e ciência.A Christiane mostrou em seu artigo que grandes cientistas não excluiram a fé em Deus para fazer ciência, pelo contrário deram testemunho de Deus por meio da Razão.

Christiane on 23 de agosto de 2010 20:04 disse...

João

Obrigada pelo comentário. Espero estar sempre a altura da minha missão.
Volte sempre e um grande abraço.

Christiane Forcinito

 

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